
Tenho observado que os interesses dos estilistas nem sempre estão em sintonia com os dos consumidores, mesmo os mais descolados, de vanguarda, modernos.
Os consumidores demonstram interesse particular na utilização de um produto, que além de satisfazer uma necessidade aparente também comunique de maneira não verbal sua condição emocional, afetiva, socio-econômica-política e estética.
Por exemplo, uma pessoa que veste determinada roupa (sapato, bolsa, jeans, vestido,) ou usa determinados objetos (caneta, celular, carro) comunica consciente e inconscientemente, mais do que “um estar na moda”, seu estado de espírito – alegre, deprê, poderosa ou submissa, boa condição financeira, politicamente correta, ou simplesmente se esta de bem com sua estatura, peso, tempo e espaço. Seu gozo pode ser marcado quando seu objetivo – conscienciente ou inconsciente – é alcançado, afetando o outro: na sedução, submissão, admiração ou mesmo inveja.

Por outro lado, o interesse dos estilistas, entre outros profissionais da extensa cadeia da moda, é de saber o que circula no mercado e antever o que virá na próxima coleção: matéria-prima disponível, cartela de cores, tendência e anseios dos produtores e consumidores. Seu gozo não se limita em saber que sua coleção foi um sucesso nas passarelas, mas no demonstrar da criação do novo, inusitado e convertê-lo em conceito e finalmente em produto a ser consumido.
O estilista, portanto não pode ser aquele que consome o que está disponível (já é passado), mas sim aquele que já está consumindo o futuro, as idéias, o que está ainda no imaginário vanguardista e ainda será convertido em produto para completar o campo simbólico dos consumidores. Esta pode ser uma das razões da eterna ansiedade, marcada pela busca não de um produto de consumo, mas do desejo do outro.
Estas são duas faces de uma mesma moeda. E nunca a moda foi tão difundida entre todos os estratos e rodas sociais, profissionais e leigos de diferentes idades, etnias e culturas. A moda tangencia também saberes como psicologia, antropologia, sociologia, economia, filosofia e psicanálise.
A cadeia da moda tem uma extensão muito maior do que a criação, produção e venda. É fundamental considerar nesta cadeia, o processo de criação, tecnologia têxtil, processo de produção e o parque industrial, economia formal e informal (pirataria) e todos os mercados que derivam desta cadeia: editoriais, desfiles, fotografias, mídia (TV, Internet, Jornais, Revistas, etc), publicidade e propaganda, centro de distribuição (carro, caminhão, avião), canais de vendas (lojas, shopping center), centros da moda (NY, Paris, Milão, Tokyo), até o consumidor final.
Todo mundo quer estar na moda e de alguma forma está ligado a ela querendo ou não. É interessante que através da história da moda percebemos que não é um tema novo (vestir e consumir), então o que este tema apresenta de diferente na contemporaneidade? Esta é uma longa discussão que poderia ser tema de tese de mestrado e doutorado.
Estamos vivendo um mundo de abundância como nunca visto na história da humanidade. O que é produzido e desperdiçado é mais do que suficiente para atender as demandas dos seres humanos (não quero entrar em questões sócio-politica-econômicas), todos sabemos que enquanto uns passam necessidades básicas, outros esbanjam e desperdiçam, o que também faz parte do humano-tão-humano. O fato é que os estudos e pesquisas, tecnologias disponíveis e recursos financeiros disponibilizaram e possibilitaram o acesso de produtos a grande maioria da população. Desta forma, a preocupação das pessoas medianas extrapolam questões objetivas acerca da sobrevivência (comer, vestir, proteger-se) para além do consumo – aquilo que é subjetivo, o desejo.
A constituição subjetiva e inconsciente do sujeito é marcada pelo desejo de desejar, desta forma não há produto que vá satisfazer a um único ser. Ora desejo “isto” e acho que se o tiver serei eternamente feliz, até que quando realizo meu sonho de consumo e percebo que não basta, quero agora “aquilo” pois “aquilo” é o que vai me deixar eternamente feliz. E assim, sucessivamente, sem cessar. Desta forma, o que nos move não são os objetos e sim o desejo de desejar.
O trabalho dos profissionais de criação, incluindo o estilista é de manter esta cadeia desejante em movimento, não podendo fixar-se em um produto, mas na escuta do desejo do outro para transformá-lo em produto ou serviço.

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Artigo escrito por Carlos Alberto Alves e Silva. Psicanalista e economista, com pós-graduação em Administração pela USP e Marketing pela ESPM. Tem MBA em Gestão Internacional pela Thunderbird School of Global Management – Arizona – USA e formação nas áreas de Psicologia e Filosofia. email: carlos@imeridiano.com

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Micheline, obrigado por seu comentário. Carlos
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